Eu, Cameo

Para aqueles que não são versados na gíria cinematográfica, explico que um cameo diz respeito a uma pequena participação surpresa de um protagonista das artes num programa de tv, filme ou vídeo musical. A linha que separa a participação cameo de uma participação especial é ténue, mas diferenciada pela inclusão do nome do artista nos créditos iniciais (de outro modo estragaria a surpresa, não é verdade?). Que comece o compêndio de cameos.

Alguns cameos são presenças sem falas, outros têm diálogo ou uma frase. Alguns representam-se a si próprios numa realidade alternativa, outros surgem como personagens que desempenharam em filmes ou séries de tv que de algum modo estão ligados ao contexto. Não há limites nem regras, é um pouco vale tudo, desde que contenha o elemento surpresa e o efeito cómico também. Alfred Hitchcock foi um dos primeiros cineastas a explorar esta coisa do cameo, surgindo amiúde nos seus filmes.
Bruce Willis
“Mad About You” (TV)

No episódio em que Jamie dá entrada no hospital para ter o bebé, Paul embarca numa odisseia para trazer a aliança da esposa que ficou esquecida no apartamento. Ao regressar depara-se com um aparatoso dispositivo de segurança devido à hospitalização de Bruce Willis depois de um acidente na filmagem do seu último filme: “Die Already”. Uma clara graçola à franchise, com a conivência de Willis (na altura a filmar “Doze Macacos”), absolutamente hilariante, satirizando o seu personagem do durão desbocado John Maclaine.

Anos mais tarde, Willis participa, como ele próprio, em “Ocean’s 13“, confrontando-se com a personagem Tessa, protagonizada por Julia Roberts, fazendo-se passar por…. Julia Roberts! Sim, é confuso, mas bem explicadinho soa assim: Julia Roberts interpreta a personagem de Tessa que, levando a cabo, um esquema, faz-se passar pela actriz Julia Roberts.

Pearl Jam
“Singles”

A carta de Amor de Cameron Crowe à cidade de Seattle resulta numa extraordinária banda sonora que, não só reflecte a década de noventa, como inclui participações dos músicos que definiram a cena musical de Seattle. A mais curiosa, os três elementos dos Pearl Jam, aqui como companheiros da banda de Cliff (Matt Dillon), os Citizien Dick. Outros cameos incluem, o próprio realizador, Chris Cornell dos Soundgarden e Tim Burton.

Bruce Springsteen
“High Fidelity”

Quando Rob Gordon (Cusack) deambula sobre a possibilidade de falar com todas as suas ex-namoradas para perceber o que falha nas suas relações, remete para uma canção de Bruce Springsteen. Qual não é o nosso espanto quando o Boss, ele próprio, improvisa pérolas de sabedoria dedilhando a sua guitarra.

Alice Cooper
“Wayne’s World”

Quando se fala em Alice Cooper, imaginamos algo decadente, macabro, obscuro e até sanguinário. Quando Wayne e Garth, de acreditação Livre Acesso em riste, entram no camarim de Cooper, não estão preparados para a presença serena e algo didáctica de tão visualmente assustador performer. E nós também não, daí a piada. A realizadora Penelope Spheeris confessou que, inicialmente pensou, em Ozzy Osbourne para o papel, mas este rejeitou. O futuro ditaria que o público veria igualmente Ozzy num ângulo bem diferente daquele que estamos habituados.

Steven Spielberg, Tom Cruise, Gwyneth Paltrow, Britney Spears, Kevin Spacey, Danny DeVito
“Austin Powers – Golden Member”

A predilecção das aventuras do espião Austin Powers, está na justificação para a incrível parada de artistas que brindam os créditos iniciais do terceiro filme da saga Austin Powers. Primeiro um spoof do spoof que são as aventuras do espião de Sua Majestade preso da década errada. De seguida de um making of com direito a ver os seios de Britney Spears a disparar rajadas de munição.

Harrison Ford
“E.T – Extra – Terrestrial”

Aqui está um cameo muito bem disfarçado, são poucos os que reconhecem a figura e voz de Harrison Ford como o professor de Elliot na sequência da dissecação dos sapos. Ford aparecia noutra cena, que acabou por ser cortada, mas pode ser vista no DVD.

Cher
“Will & Grace” (TV)

Esta série teve inúmeras e frutíferas participações especiais, ou os actores protagonizavam personagens ou interpretam si mesmas. Este cameo de Cher é inesperado e não seria o único na série. Engraçado como Jack, fã número um de Cher, a ignora por completo, tomando-a por um travesti muito bem disfarçado.

Matt Damon Ben Affleck Gus Van Sant
“Jay & Silent Bob”

O filme é mau e talvez Matt Damon e Ben Affleck o soubessem mas, como o primeiro diz no filme “quem manda dever favores a amigos?!”. Este é o melhor momento do filme. A cena diz respeito à filmagem de uma suposta sequela de “Good Will Hunting”, dirigida (ou não) por Gus Van Sant.

Robert Patrick
“Wayne’s World”


Um bom exemplo de cameo, com Robert Patrick a bisar a arrepiante personagem de T1000 em Terminator – Judgment Day que ainda estava fresquinha na memória dos espectadores aquando a estreia de Wayne’s World em 1992.

Brad Pitt & Matt Damon
“Confessions of a Dangerous Mind”

O poder de influência de George Clooney, não só consegue contratar Julia Roberts por uma nota de 20 dólares, como “pesca” estes dois belos cromos, na realização do seu primeiro filme.

Michael Jackson
Men in Black

Michael Jackson, um alien a requisitar um lugar como agente MIB. Realidade ou ficção?! Apenas um cameo muito bem pensado.

Keith Richards
“Pirates of the Caribbean – At World’s End”

Quando Johnny Deep confessou ter baseado o seu personagem de Jack Sparrow no legendário guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, estava longe de imaginar que ele aceitaria interpretar o seu pai no terceiro filme da saga Piratas das Caraíbas. Quanto ao espectador, foi uma surpresa já anunciada, mas talvez a surpresa maior foi saber que Richards partiu a cabeça ao cair de um coqueiro quando estava no local da filmagem. Há pessoas que mais parecem personagens de filme e Keith Richards é uma dessas pessoas.

Marshall McLuhan
“Annie Hall”

O que faz um estudioso da comunicação num filme de Woody Allen? Ajuda a provar um ponto de vista. Parafraseando Woody Allen ” Se ao menos a vida real fosse assim…”

Michael Jackson: Liberian Girl (Video clip)

O obsceno número de cameos no videoclip de um dos singles do álbum Bad, não só impede a menção a todos os artistas (cantores, actores, realizadores, produtores) nele incluídos, como me atrevo a caracterizar este clip como um enorme cameo em forma de vídeclip.

Os realizadores, volta e meia, gostam de meter uma perninha na interpretação, ou por piada ou por falta de casting. Peter Jackson é daqueles que raramente falha um cameo.

Também Martin Scorcese

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Audições para o novo coelho da Páscoa

Com a proximidade da Páscoa, o Mixtape faz um exercício cinéfilo sob a premissa de encontrar o novo rosto do coelhinho da Páscoa. Como? Avaliando as audições de cinco coelhos do imaginário do cinema. Sentem-se no banco do júri e avaliem os vossos favoritos.
Roger Rabbit
(Who Framed Roger Rabbit)

“My whole purpose in life is to make… people… laugh!”

Perfil: Actor Animado, especializado em comédia screwball. Baixo, pêlo branco, com poupa ruiva, olhos azuis e um genuíno brincalhão. Casado com Jessica Rabbit.

Prós: É um coelho do Show biz, um profissional treinado para entreter as massas (especialmente crianças) e tem a ajuda da sensual esposa Jessica Rabbit na distribuição dos ovos de chocolate, algo que fará igualmente as delícias dos pais das criancinhas.

Contras: Tendo em conta o nível de ansiedade de Roger, o mais provável seria os ovos de Páscoa ficarem pelo caminho ou serem todos ingeridos pelo frenético coelho.

Bugs Bunny
(Looney Toons)

“What’s up, Doc?”

Perfil: Desenho animado, trabalha para a Looney Toons. Espertalhão, sabichão, versátil. Espadaúdo, pêlo cinzento e olhos castanhos, tem dois inimigos figadais: Yosemite Sam e Elmer Fudd. Gosta de roer uma cenoura

Prós: Bugs Bunny é um coelho vivido e viajado, safa-se bem de apertos e é imaginativo. Para além de ovos de chocolate e amêndoas, pode igualmente distribuir uns palitos de cenoura que é uma opção mais saudável.

Contras: Tendo em conta o seu fraco sentido de orientação debaixo da terra, é melhor mantê-lo acima do solo. Trazer Yosemite Sam e Elmer Fudd no encalço é meio chato, mas sem dúvida divertirá as crianças que acharão piada ao farfalhudo bidode de um, e a estranha fonética do outro.

Frank
(Donnie Darko)

 “You’re in great danger”

Perfil: Alucinação representando a voz de um futuro tenebroso. Alto, soturno, rosto coberto por máscara horripilante de dentes e órbitas dos olhos salientes.

Prós: Óptimo para corrigir crianças birrentas, armadas ao pingarelho.

Contras: Espanta a criançada o que resultaria numa acumulação de ovos de chocolate e amêndoas, mas poderiam ser distribuídas por instituições de caridade. Não tem uma máscara apelativa para espalhar a mensagem cristã da ressurreição de Cristo.

M.A.U
(videoclip “Prick (I am)

Perfil:Homem com fato de coelho em peluche de cor azul. Esguio e rápido com embaraçantes movimentos pélvicos. Parco nas palavras.

Prós: É um coelho energético sob a capa de coelho amoroso e engraçado. Transmite, com sucesso, a imagem de fertilidade, a razão por que o coelho foi escolhido como  a representação da Páscoa.

Contras: Risco eminente de ser acusado de exposição indecente e perturbar a santa paz da Páscoa.

White Rabbit
(Alice in Wonderland)

“I’m late!”

Perfil: Desenho animado. Um coelho sénior de pêlo branco, bem-falante, bem vestido e bem articulado. Usa óculos. Implementa na sua indumentária o chapéu-de-chuva e relógio de bolso  que lhe confere um ar british e precavido.

Prós: Aspecto exemplar, pés ligeiros e chave para a entrada no Pais das Maravilhas

Contras: Está sempre atrasado e por isso há o risco de apenas estar disponível no feriado do Dia do Trabalhador. A idade pesa.

Quentin Tarantino- Master of Cameo

Antes de ser realizador /guionista, Quentin Tarantino tentou a sorte como actor e, apesar da sua carreira de interprete não o ter levado muito além, o rapaz até tem jeito, especialmente quando faz dele próprio, divagando sobre cinefilia. Tarantino não é o único realizador a fazer pequenos cameos nos seus filmes mas é, talvez, aquele que mais participações tem fora deles. São essas participações que nos vamos concentrar, por ordem cronológica

Reza a lenda que Quentin mentiu no seu currículo para conseguir papéis, sublinhando a sua participação no filme de 1978 «Dawn of the Dead» de George A. Romero e «King Lear» de Jean-Luc Goddard, filmes à margem de Hollywood. A sua primeira experiência como actor foi numa curta-metragem realizada e escrita por si em 1987, «My Best Friend’s Birthday» quando ainda trabalhava na loja de aluguer de vídeo. Curiosamente, os restantes actores da curta foram os seus colegas de trabalho. A curta nunca foi lançada, mas está na web uma cópia demo onde se reconhecem alguns excertos que foram incluídos no primeiro guião de Tarantino a ser filmado, «True Romance», realizado por Tony Scott..

Em entrevista no programa «Charlie Rose», pela altura da estreia de «Jackie Brown» Tarantino fala sobre o seu gosto em representar e como foi esse o seu começo (no vídeo a partir do minuto 1m23).

Golden Girls (TV 1988)
Personagem: Imitador de Elvis Presley (a descrição explica tudo).

Eddie Presley
Jeff Burr
Personagem: Funcionário de um asilo.


Nota-se uma predilecção pela temática Elvis Presley. Não é segredo que o realizado é um grande fã de Elvis.
All American Girl (TV 1994)
Personagem: Sid.

Neste episódio que retrata a vida de uma família coreana na América, Tarantino é um fornecedor de filmes VHS que mostra interesse pela filha do casal. O episódio tem imensas referências ao filme «Pulp Fiction». e a sua presença é um grande piscar de olho à sua obra.

Sleep With Me (1994)
De Rory Kelly
Personagem: Sid
Em conversa com alguém numa festa, Quentin é basicamente ele próprio discutindo o significado subentendido do filme Top Gun.

Desperado (1995)
De Robert Rodriguez
Personagem: No filme realizado pelo seu irmão do coração, como diz ele, Tarantino é um género de intermediário que aparece num bar a contar uma piada.

Destiny Turns on the Radio (1995)
De Jack Baran
Personagem: Johnny Destiny.
Começa com Quentin a dar boleia ao protagonista e depois coisas estranhas acontecem, incluindo a cena do realizador a sair de uma piscina para ser atingido por um raio laser…


Somebody to Love (1996)
De Alexandre Rockwell
Personagem: Empregado de bar que se adivinha falador, em vez de bom ouvinte como todos os empregados de bar.

From Dusk Til Dawn (1996)
De Robert Rodriguez
Personagem: Richard Gecko.

Tarantino contracena com George Clooney, interpretando o seu irmão com um certo problema de manter a calma.
Little Nicky (2000)
De Steven Brill
Personagem: é um padre cego que dá sermões na rua.
Depois deste papel saiu um pouco de circulação representativa, excepto nos seus filmes, mas não sem antes experimentar um pouco de comédia slapstick.

Alias (TV 2002)
Personagem: McKennas Cole.
Tarantino é um ex agente renegado que enfrenta a organização governamental de Sidney Bristow.

The Muppets Wizard of Oz (Telefime 2005)
De Kirk R.Thatcher
Personagem: o realizador que interpreta um realizador que faz uma apresentação de um filme com os Marretas

Planet Terror (2007)
Robert Rodriguez
Personagem: no IMDB está creditado como violador #1, Carne para canhão zombie. Terror de série B é a praia de Tarantino e os monólogos onde o cinema é o tema principal, também


Sukiyaky Western Django (2007)
De Takashi Miike
Personagem:Piringo.
O realizador está como um peixe na água interpretando um pistoleiro solitário, ocidental, no meio do universo oriental dos mestres de espadas samurai.

 

Top Piegas

A imagem ilustra a “Apoteose da baba e ranho”, expressão que uso quando assisto a uma cena demasiado emocional. Numa semana plena de razões para chorar, eis uma lista onde podem chorar à vontade –  O top 10 de filmes que me levaram às lágrimas. A tal apoteose da baba e ranho, atenção, não é uma figura de estilo, mas uma expressão que deve ser levada à letra. Não gosto de tops pois não consigo quantificar algo como sendo melhor que outro, porém tendo em conta que este top se baseia no número de lágrimas choradas por metro de fita cinematográfica, torna-se bem mais fácil.
Não se pense que, por criar o Top Piegas sou pessoa de choro fácil, nada mais afastado da realidade. Contudo, sentada numa cadeira de sala de cinema, onde a o instrumental alia-se com a imagem, o meu canal lacrimoso é atacado em força. Tendo em conta que metade deste top diz respeito a filmes visionados na infância, explica a facilidade da lágrima, porém a segunda metade corresponde à idade adulta e após rever os seguintes clips, rodeada de lenços de papel encharcados e com olhos inchados. Chego à conclusão que ainda atingem o canal lacrimoso.
Aqui fica, por ordem decrescente de lágrimas
1. ET – EXTRA TERRESTRIAL (E.T – O Extra Terrestre)
Razão: Captura e morte do E.T

Aqui está um exemplo que faz jus  à ilustração que introduz este tema. Para uma criança de 5 anos que nem sabia ler as legendas e via o seu primeiro filme não animado numa sala de cinema, o E.T era um animal de estimação que, tal como um cão, adoraria mimar. Assim que vi os homens com os fatos espaciais a entrar na casa, pressenti imediatamente que o E.T estava ameaçado e berrei em pranto. Devo ter chateado metade da lotação daquela sala com a minha berraria soluçante mas, sinceramente, nunca havia sentido uma tristeza tão avassaladora na minha curta vida. Quando o E.T  jaz no chão e chama desesperado por Elliot quando são separados, entro em choque e chorei com tal intensidade que a minha garganta inchou, os meus ouvidos entupiram, engasguei-me na própria baba e preguei um grande susto à minha mãe. Juro que nunca na vida chorei tanto como naquele momento – nem mesmo nas férias do Algarve, no ano seguinte, quando escorreguei de um muro, deixando a coxa em carne viva e acreditei piamente que ia morrer. No limiar da década de 90, já o E.T estava disponível para aluguer e passava na tv, não diminuiu muito o meu fluxo lacrimal. Já na adolescência, via o E.T com uma toalha no colo, longe de olhares alheios para não verem a minha triste figura. Pela ocasião do vigésimo aniversário da estreia do filme, já tinha algum controlo e “flanqueada” por dois distintos críticos de cinema, pratiquei (com treino) o que chamo de “choro em silêncio”.
2. NEVER ENDING STORY ( História Interminável)
Razão: A morte de Artax

“História Interminável” não guarda o recorde de mais lágrimas, porém detém o recorde absoluto de filme mais visto na infância – um total de mil e quinhentas e trinta e nove vezes. Nunca o vi no cinema, mas via-o obsessivamente no vídeo lá de casa. Assistia ao filme antes de ir para a escola, quando regressava, quando fazia os trabalhos de casa, quando recebia visitas dos amigos. Estes podem testemunhar a facilidade com que ligava a torneira das lágrimas quando o cavalo Artax sacumbiu às traiçoeiras águas do Pântano da Tristeza. Em minha defesa apraz dizer: se até o realizador do filme não resistiu à emoção ao gravar a cena, imagine-se qual o estado de espírito desta amante suprema de animais, ao ver a morte de um cavalo. A mancha da mesa da sala de estar da minha antiga casa, atesta o meu estado de precipitação lacrimal.
3. ELEPHANT MAN (O Homem Elefante)
Razão: Crueldade Humana


Vi este filme na tv quando era novinha, na altura não sabia que o personagem de John Merrick era baseado numa pessoa real. Mesmo alheia ao pormenor da veracidade da história de vida de Merrick, assistir a atroz crueldade humana, perante alguém fisica, cultura, emocionalmente diferente é algo que foi (e é) difícil assimilar. Particularmente em criança, mas ainda o é hoje. A profunda tristeza e horror pela forma como tratavam um ser humano deformado, como um bicho, ficou marcada na minha memória. Jamais esquecerei a desumanidade de uma multidão diante um finalmente feliz Merrick.

4. ANIMAL FARM (O Triunfo dos Porcos)
Razão: Morte de Boxie

Achei estranho assistir a um filme de animação em plena noite, mas o protagonismo de amorosos animais de quinta a conviver em harmonia uns com os outros, sossegou a minha mãe que permitiu que a sua filha de 8 anos ficasse até mais tarde a ver televisão. Mal sabia ela, muito menos eu, que o filme nada tinha de infantil e tudo de revolucionário. A adaptação cinematográfica do livro de George Ornell “O Triunfo dos Porcos” é um retrato crítico á sociedade capitalista que corrompe os valores humanos. Assim que os amorosos porquinhos cresceram para personificar malvados tiranos que escravizam os restantes animais de quinta, questionei-me como seria possível existir um filme de desenhos animados tão cruel. Quando o cavalo Boxer morreu já estava lavada em lágrimas e fui de bom grado para a cama antes de terminar o filme. Façam o que quiserem mas, pelo amor de Deus, não matem os animais! Até o serial killer de “O silêncio dos Inocentes” tinha estima pelo seu cãozinho. Ainda bem que a minha mãe nunca me levou a ver o “Bambi”! Imaginem o descalabro que isso significaria para tamanha defensora da causa animal.
5. DEAD MAN WALKING (A Última Caminhada)
Razão: Redenção, Humanidade


A meio da tabela, chegamos aos filmes visionados em idade adulta. Lembro-me do arrumador nazi da já extinta sala Alfa e como chorei baba e ranho, limpando tudo nas mangas da camisa, não não fosse o homem apontar-me a luzinha e expulsar-me dali. Um espectador ousou perguntar porque as luzes estavam acesas na altura dos trailers e o arrumador Nazi resmungou apoplético “tou farto de dizer que é sempre assim durante os trailers!” Medo, medo! Pena de morte é um assunto que já de si me melindra bastante, acho uma hipocrisia o mesmo Estado que diz não deves matar, o faça impunemente, porém, o que mais me comoveu foi a humanidade da irmã Prejean nas suas palavras: “ You look at me when they do this thing and I’ll be the face of love for you”. Baseado no verdadeiro testemunho da irmã, este mostra que o ódio não se combate com ódio. A dúvida sobre a culpabilidade de Poncelet permanece durante todo o filme, até ao momento final. Vendo atrocidade do crime cometido em paralelo com o “assassinato estatal” testemunha-se que a redenção  provêm do reconhecimento da verdade, assim como o maior castigo.

6. SCHINDLER’S LIST (A Lista de Schindler)
Razão: Extrema Crueldade Humana


Steven Spielberg está no top da minha lista de realizadores favoritos( ainda nem havia atingido a puberdade e já o era). É a minha convicção inabalável que Spielberg faz filmes extraordinários, muito bons e bons, jamais maus! Acho que em toda a filmografia, apenas falhei um escasso par de títulos. A Lista de Schindler esteve muito perto de ser um filme não visionado devido ao tema que sempre me melindrou – o Holocausto. Spielberg até aqui era conhecido pela boa disposição e entretenimento que imprimia nos seus filmes, lidar com tema tão obscuro e pesado parecia algo totalmente fora do seu alcance. A minha dedicação ao realizador venceu, mas foi uma experiência demasiado brutal. De tal intensidade que pela altura do massacre no ghetto (cena que não figura neste vídeo devido ao conteúdo violento do mesmo), senti vontade de vomitar e estive mesmo para sair da sala tal o prolongamento da agonia, dos gritos, do sangue (que era a preto e branco), da crueldade extrema – aleatória, cega, sem compaixão, sentido ou humanidade. Nem tinha a desculpa de assimilar que esta era uma obra de ficção. Saber que tamanha atrocidade aconteceu em pleno século XX é demasiado para quem ingenuamente acredita na bondade humana.

7. DANCER IN THE DARK

Razão: Destruição de um Coração Puro


Eis um filme que deliberadamente exagera no grau de crueldade, trazendo a má sorte, incompreensão e corrupção emocional ás suas personagens. Lars Von Trier e Björk, respectivamente realizador e cantora, que não me agradam particularmente, abriram a minha torneira da choradeira com um relato de faca e alguidar que não lembra o menino Jesus. Uma emigrante de leste, inocente e pura, luta para sustentar o filho, sonhando viver dentro de um musical. A moçoila é enganada pelo vizinho que lhe rouba as economias para pagar os gastos excessivos da mulher e a partir daí a pobre Selma sente na pele o degredo semelhante à figura bíblica de Jó. Não consegui resistir e o grande culpado é a magistral composição musical. De que outra maneira se pode explicar as lágrimas que rolaram logo no genérico de abertura? Um ecrã a negro só com um instrumental – pelo amor dos santos! Mas, confesso, chorei porque é-me difícil assistir á destruição de um coração puro. Ficção ou não.

8. TITANIC
Razão: Morte do Navio


Aposto que estão surpresos por este filme não figurar no topo da lista? Embora tenha havido sessões de choro fortes, foram um tanto ou quanto dessincronizadas com o resto da audiência. Para começar chorei logo nos créditos introdutórios (onde já se viu?!). A choradeira, ainda que ao nível silencioso, aumentou de tom a partir do momento que o navio fica condenado a morrer. Esqueçam a Rose e o Jack, história de amor, tadinho do parzinho vai ficar separado. Não. Eu chorei com a destruição do navio e o pânico dos passageiros. James Cameron fez um trabalho esplêndido ao trazer de volta a memória do Titanic, com tal fidelidade, veracidade e humanidade que os espectadores sentiram empatia pelos personagens, sabendo de cor o seu destino. Foi impossível compilar todos os momentos Buá, mas este seguramente é um deles.

9. COLOR PURPLE (Cor Púrpura)
Razão: Separação das Irmãs


A única felicidade de Cellie no meio de abusos, maltratos e desrespeito, sofridos desde tenra idade, é a sua irmã. Quando o marido ciumento de Celie as separa, sentimos na alma a dor da separação das duas irmãs que se amam. Se vocês não sentem nem um prenúncio de uma lágrima que seja nesta cena, desculpem lá, mas algo de muito errado se passa com o vosso centro emocional. Tenho dito!
10. REQUIEM FOR A DREAM
Razão: Desilusão de uma vida perdida

O segundo filme realizado por Darren Aronofsky não é de fácil visionamento e seguramente não o verei de novo, porém, é uma viagem emocional que ninguém deve perder. Um filme visual e musicalmente magistral, percorre as estações do ano como estados emocionais. Segue do encantamento e euforia da Primavera, para a devastação e decepção cruel do Inverno. Aronosfsky fala de vícios, não só químicos, mas aqueles que guardam a ilusão de uma vida melhor. O nível de choro atinge o pico do insuportável nesta cena, quando Marion pede para Harry regressar a casa e este mente dizendo que em breve o fará. É de uma tristeza avassaladora, pois tanto o espectador, como as personagens sabem que tal não vai acontecer, apenas se agarram a uma réstia de esperança que em breve morrerá.

5 Canções para Tempo quente

Eis uma colectânea em sintonia com aqueles que têm de trabalhar na cidade de pedra em tempos de férias. Bem sei que custa. Oiçam a playlist em repeat no vosso computador. Ainda que não refresque, ficam com a sensação que não são os únicos a destilar com o calor que faz lá fora.

Playlist: Hot in the City

  1. Clã: Fahrenheit
  2. Billy Idol: Hot in the City
  3. Joe Cocker: Summer in the City
  4. Bina Mistry: Hot, Hot, Hot (BSO Bend it Like Beckham)
  5. Jimmy Hendrix: Long Hot Summer

Sistema de Arquivo

Em três anos de existência de Mixtape, surpreende-me como o sistema de arquivo, assunto de obrigatória menção para qualquer alma croma, ainda não foi abordado. Pode parecer mundano e frívolo, porém desenganem-se aqueles que não têm o impulso do coleccionismo audiovisual a correr no seu sangue. É matéria de primordial importância e, sendo mais cinéfila que melómana, vou debruçar-me pela emblemática da arrumação de filmes na estante. Atentem à minha sugestão.

Ao contrário dos CDs (ou vinil, se são puristas), os filmes apresentam um desafio no que diz respeito ao seu título. Optamos pelo fiável sistema alfabético quanto ao título original ou ao português? Ignoramos os artigos “A (s)”, “O(s)”? Separamos os filmes pelo seu género e se sim, o que fazer com os sub-géneros. “Birds” de Hitchcock: suspense ou terror? “50/50” comédia ou drama? Estão a ver o imbróglio?…

Quando adquiri o meu leitor, tendo uma magra variedade de títulos, ia a casa do meu amigo Marco escolher DVDs da sua ampla colecção. Chamava-lhe “Marcoteca” e era o equivalente cinéfilo a estar numa loja de doces a la carte. O problema, e porque os filmes não estavam alinhados por nenhuma ordem, tinha de percorrer TODOS os títulos de cima para baixo, direita para esquerda.

Acumulando a actividade de crítico de DVDs na revista Premiere, o Marco todas as semanas recebia uma remessa nova de títulos, enchendo ainda mais a estante e levando-me ao limite da cegueira cada vez que procurava as novidades. Não seria mais fácil perguntar, quais os novos filmes adquiridos? Claro que sim mas, por mais meticuloso que o Marco fosse, boa memória não era uma virtude sua. O único indício de método de arquivo na Marcoteca era o cantinho dedicado à actriz Angelina Jolie, tirando esta subjectiva categoria, o método era “Tudo ao molho e fé em Deus!”

A minha colecção actualmente é bem mais modesta que a do Marco, mas à medida que os títulos se acumularam comecei a pensar qual seria o melhor método de arquivo tendo em conta a problemática descrita em cima. Pois bem, encontrei um que, embora infalível, apenas funciona em estantes de cinéfilos convictos.

Ei-lo: Ordem cronológica da data de estreia. Dos filmes mais antigos (prateleira de baixo), aos mais recentes (prateleira de cima). EUREKA!

Genial, não? Mesmo que sejam DVDs encomendados no estrangeiro com o título original ou lançamentos portugueses, o denominador comum a todos é a data de estreia. E mesmo que sejam inéditos em Portugal, podem sempre contar com a data de lançamento impressa na contra capa do DVD. Se querem ser mais meticulosos (leia-se picuinhas) Podem até ordenar alfabeticamente os títulos dentro da ordem cronológica ascendente. Façam alas por décadas (70, 80, 90 etc..) se as vossas colecções são mais modestas ou se os vossos cérebros não fixam bem datas.

O método cronológico é eficiente e poupa tempo. Espalhem a palavra, sejam cinéfilos organizados. Qualquer dúvida, vejam a Bíblia cinéfila IMDB.