Catedrais de Cinema

Aproveitando a reposição do filme de Giuseppe Tornatore, o belíssimo  «Nuovo Cinema Paradiso« que comemora o seu 30º aniversário, o Mixtape puxa os galões da nostalgia cinematográfica, sob forma fotográfica. Passo a explicar.

Em 2002, o gosto pelo Cinema, foi o mote para fotografar as salas de cinema que, não só ajudaram a moldar o meu amor pelo cinema, como representam recintos onde se respira História. Na última década, faustosas salas como o São Jorge, Tivoli ou Condes fecharam as portas e foram substituídas, nos hábitos dos cinéfilos, por (odiosos) complexos multiplexes, mas não nos seus corações. Algumas dessas salas protagonizaram um condigno comeback para mostrar que a 7ª arte é devidamente apreciada nas catedrais que a respeitam e perpetuam o seu legado.

Das salas de cinema protagonistas deste slideshow: Cinemateca Portuguesa, Cinema São Jorge, Tivoli e Sala Foz (Cinemateca Júnior), apenas o Tivoli suspendeu a sua exibição cinematográfica, embora perdure como sala de teatro As restantes passam filmes a título comercial (a Cinemateca) e o São Jorge filmes em circuito de festival

Até podia ser um pretexto para compilar o top: 5 razões porque detesto multiplexes, mas penso que o meu tributo fotográfico às belíssimas salas de cinema de outrora – aquelas que ainda permanecem de portas abertas, é prova irrefutável da minha apaixonada dedicação a esta salas. Também a letra da música que acompanha o slideshow diz tudo sem que precise acrescentar mais nada. Apenas isto, não existem downloads gratuitos, dvds, televisão, canais temáticos por cabo que me retirem a emoção de assistir a um filme numa sala de cinema.

Duas salas de cinema contribuíram para moldar a minha cinefilia na infância e que foram os meus Cinemas Paradiso: O cinema Nina e sala da Sociedade Recreativa da Amora S.F.O.A. A sala Nina , a 400 metros da minha casa foi, indiscutivelmente, aquela que mais relevância teve por ser um capítulo importante da minha infância /adolescência. A notícia do seu encerramento deixou tristeza,  (mais um cinema local que encerra as portas para dar lugar aos odiosos multiplexes na periferia das localidades). O que era uma referência física passou a existir apenas como uma recordação do meu imaginário.

Não consigo precisar com factualidade o ano de abertura do cinema mas lembro-me de cada momento que ali passei. Ao longo de mais de duas décadas a sala de cinema, parte integrante do mini centro comercial com reputação duvidosa foi um ponto de referência, refúgio, escape, ponto de encontro e pausa para apreciar os deliciosos croissants com doce de ovos no intervalo de cada sessão.

Primeiro foram as manhãs infantis. Às 11h, lá estava para recordar os velhos (para mim, novos) clássicos da Disney – na altura dobrados em brasileiro. No início assistia aos filmes com a minha mãe, algum tempo depois, implorava para ela me deixar ir sozinha – só mesmo os miúdos têm pachorra para ir ao cinema às 11h da manhã. Seguiram-se as matinés com os amigos, a transição entre desenhos animados e imagem real.

Não tenho qualquer  registo fotográfico da sala de cinema Nina (inaugurada como Cinema Lord), apenas a colecção de canhotos dos bilhetes (com a devida classificação crítica em estrelas) mas em visita à S.F.O.A deparei-me com a possibilidade de fotografar a sala de projecção, presa num tempo onde o filme em película reinava. Ali, naquela sala, conservam-se as memórias de um tempo áureo da projecção cinematográfica e adorei fotografar cada uma delas.

 

 

 

 

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Jukebox Oscar

A poucos dias da cerimónia dos Óscares, o Mixtape faz uma viagem musical percorrendo, cronologicamente, as canções vencedoras do Óscar para melhor Canção Original. Tudo começou há muito tempo atrás, não numa galáxia distante, mas no mítico Hotel Biltmore em Los Angeles. A categoria de Melhor Canção original foi introduzida na 7ª edição dos Óscares no ano de 1935 e premeia os compositores e letristas da canção incluída no filme.

Para ser elegível, uma canção tem de ser composta originalmente para um filme, o que descarta canções que usam samples, versões e mash ups e explica a razão porque Moulin Rouge não teve nenhuma canção nomeada no ano que que concorreu. Também não pode ter sido lançada antes do ano em que o filme concorre e essa regra quase deixou de fora a canção vencedora de um Óscar em 2008 pelo filme Once. “Falling Slowly”, havia sido apresentada ao vivo pela banda de Glen Hansard, The Swell Season. Também por essa razão nenhuma das canções de musicais podem ser nomeadas e isso explica a introdução de uma canção original na adaptação para Cinema. “You Must Love me”, por exemplo, venceu Melhor Canção por Evita em 1996, e não fazia parte do musical de Andrew Lloyd Webber.

Em 1944 chegaram a ser 14 as canções nomeadas, em três anos, foram apenas 3, mas os estatutos permitem 5 canções nomeadas. Em quatro anos diferentes, o mesmo filme teve 3 canções nomeadas. Os Estúdios Disney detêm o monopólio de tripla nomeação e o início da década de 90 marca esse reinado, porém, no ano de 2008, foi instituída a regra de apenas 2 canções nomeadas por filme.

No meio das piadas dos anfitriões, discursos dos vencedores e apresentações de clips de filmes, a categoria de Melhor Canção é a perfeita desculpa para um número musical memorável, embora nem sempre tenha sido esse o caso. Não esquecer o infame número de Lord of the Dance. Os números musicais já foram prolongados, cortados, ignorados, colocados a um cantinho do televisor, mas aqui no Mixtape recebem honras. Eis alguns exemplos ao longo de sete décadas.

Mixtape Jukebox Oscar

1939 “Over the Rainbow” – The Wizard of Oz  Harold Arlen e E. Y. Harburg
1956  “Whatever Will Be, Will Be (Qué Será, Será)” – The Man Who Knew Too Much Jay Livingston e Ray Evans
1961 “Moon River” – Breakfast at Tiffany’s  Henry Mancini e Johnny Mercer
1969  “Raindrops Keep Fallin’ on My Head” – Butch Cassidy and the Sundance Kid  Burt Bacharach e Hal David
1971  “Theme from Shaft” – Shaft  Isaac Hayes
1973  “The Way We Were” – The Way We Were  Marvin Hamlisch, Alan Bergman e Marilyn Bergman
1980  “Fame” – Fame  Michael Gore, Dean Pitchford
1982 “Up Where We Belong” – An Officer and a Gentleman Jack Nitzsche , Buffy Sainte-Marie e Will Jennings
1983 “Flashdance… What a Feeling” – Flashdance Giorgio Moroder , Keith Forsey e Irene Cara
1986  “Take My Breath Away” – Top Gun Giorgio Moroder e Tom Whitlock
1987  “(I’ve Had) The Time of My Life” – Dirty Dancing Franke Previte, John DeNicola e Donald Markowitz
1988 “Let the River Run” – Working Girl Carly Simon
1991 “Beauty and the Beast” – Beauty and the Beast  Alan Menken e Howard Ashman
1992 “A Whole New World” – Aladdin Alan Menken e Tim Rice
1993  “Streets of Philadelphia” – Philadelphia Bruce Springsteen
1997 “My Heart Will Go On” – Titanic James Horner e  Will Jennings
2002  “Lose Yourself” – 8 Mile Eminem, Jeff Bass e Luis Resto
2007 “Falling Slowly” – Once  Glen Hansard e Markéta Irglová
2008 “Jai Ho” – Slumdog Millionaire A. R. Rahman e Gulzar

Amor Segundo o Cinema

Em Fevereiro, o Amor está no ar. Porquê? Celebra-se o Dia de São Valentim ou, para os mais distraídos em assuntos sacrossantos, o Dia dos Namorados. É a altura ideal para celebrar o Amor sob a óptica da 7ªarte. Rapaz conhece rapariga, mulher conhece amante, marido trai mulher, rapaz “conhece” tarte de maçã. Pontos de partida divergentes que convergem num só. Amor apaixonado, sexual, ocasional, etéreo, platónico, passional, obsessivo, solitário. Tudo variações da emoção mais retratada  no celulóide em cenas para sempre imortalizado no grande ecrã. O Mixtape preparou um especial Dia de São Valentim que promete inspirar os apaixonados e até aqueles que acreditam que este dia é uma grande estopada.

Pode ser desejado, mencionado, consumado ou simplesmente sugerido. Na época dourada de Hollywood, não havia espaço para manifestações físicas, mas a mera sugestão de palavras e o clássico sex appeal das estrelas de Hollywood arrebatavam corações dos espectadores. O tempo de cronometrar 8 segundos para um beijo está a anos luz de distância. Ao longo dos anos, as cenas de amor revelam cada vez pele, ao ponto de suplantarem o próprio filme. Mas, a expressão do Amor, física ou espiritual, mantêm-se acompanhando a evolução dos tempos.

English Patient: Ralph Fiennes & Kristen Scott Thomas

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Se as mulheres já suspiravam com a visão de Ralph Fiennes, gordo e sádico em “Lista de Schindler”, A personagem do conde Almásy: espadaúdo charmoso, bronzeado, sedutor – perdida e obsessivamente apaixonado por Katherine-  fez de Fiennes o eterno quebra corações. Adoro a forma como ele nomeia o vale na base do pescoço dela como o seu local preferido.

 Basic Instint : Sharon Stone & Michael Douglas

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Nunca cena de sexo foi tão longa e bem aproveitada. A química de Stone e Douglas explodiu no ecrã. Sobre esta cena, a personagem de Douglas disse: “She’s the fuck of the century”, já a actriz Sharon Stone fez um comentário amplamente publicitado: “Tive, pelo menos três orgasmos!”.

Revenge : Kevin Costner & Madeline Stowe

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No final dos anos 80 e início dos 90, Kevin Costner era hot property de  Hollywood, partilhando “O Amor” com Sean Young , Susan Sarandon, Mary MacDowell no banco de trás de uma limusine, banheira, bengaleiro, tenda. Num dos filmes mais desinteressantes de Tony Scott, Costner e Madeleine Stowe protagonizam  um bem mais interessante e magnificamente fotografado affair. Para os mais curiosos e pacientes podem ver o video e testemunhar como a química entre dois actores funciona no mais simples acto de fazer limonada.

Tequila Sunrise
: Mel Gibson & Michelle Pfeiffer

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Mel Gibson e Michelle Pfeiffer a emergir da piscina todos nus. Parafraseando a personagem do Raul Julia “it was like a fucking marathon 3 hours, Jesus!” Nos tempos idos em que os belos olhos de Mel Gibson paravam o coração da ala feminina.

Thelma & Louise: Geenna Davis & Brad Pitt

Louise: “You finally got laid properly, I’m so proud…”

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Foi tudo o que bastou para retirar Brad Pitt da sombra, a caminho do título de “O Homem Mais Sexy Do Planeta”.

Breathless : Richard Gere & Valérie Kaprisky

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No apogeu do seu estatuto de sex symbol, Richard Gere contracenou com a francesa Valérie Kaprisky numa adaptação americana do filme de Goddard. No papel de Jessie, Gere é um delinquente em fuga, com tempo para embaciar o ecrã nas cenas de sexo que viriam a ser o SEU  “pão nosso de cada dia” na década de 80.

Devil’s Advocate: Keanu Reeves & Charlize Theron

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Keanu Reeves com outra no pensamento e Charlize Theron contra a parede. Gosto do pormenor dele estar despido com as botas (e a cicatriz na barriga).

Fatal Attraction: Michael Douglas & Glenn Close

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O amor obsessivo de Glen Close por Michael Douglas, levou a ala masculina a pensar duas vezes antes de cometer adultério. Antes de cozer o coelho da filha deste numa panela, Glenn Close professou o amor na cozinha, elevador e outros sítios arredios.

9/2 Weeks:
Kim Basinger

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Quem quer saber do Mickey Rourke quando se tem a Kim Basinger a fazer um soberbo strip ao som de “You can leave your hat on”?! Voyeurismo, sim!

Ghost: Patrick Swayze & Demi Moore

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Swayze e Moore, protagonizam um amor que sobrevive à morte. Manifestado em vida nesta cena, com o tema “Unchained Melody” dos Righteous Brothers, em perfeita sincronia com os movimentos da paixão. Uma das mais memoráveis cenas de amor do cinema, fez correr muita tinta e multiplicou-se em imitações baratas. Nenhuma suplantou a original.

Jerry Maguire: Tom Cruise Reneé Zwellweger

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“That’s not a dress, that’s a Audrey Hepburn movie…”

Renée Zellweger luminosa, quebra o medo de relacionamento amoroso com Tom Cruise que nos leva às lágrimas com a declaração: “You…complete me!”

Pretty Woman: Richard Gere & Julia Roberts

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Dos sítios onde praticar “O Amor”, um piano é o mais requintado. Não é aqui que Julia Roberts beija Richard Gere mas é um hors d’oeuvres de luxo que antecede a refeição principal com direito a “Amo-te” no final.

Bram Stoker’s Dracula: Gary Oldman & Winona Ryder

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Num plano subliminar, Drácula de Bram Stoker é uma ode ao prazer oral. Pode parecer estranho considerar erótica, a cena em que uma mulher suga o mamilo cortado de um homem. Com Gary Oldman a sussurrar: “Walk with me to be my loving wife forever”, é também uma ode ao prazer auditivo!

L.A Confidential: Kim Basinger & Russell Crowe

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Lynn Bracken: I see Bud because I want to. I see Bud because he treats me like Lynn Bracken and not some Veronica Lake look-alike who fucks for money.

A velha história da prostituta de luxo que conquista o coração do polícia durão. Russel Crowe e Kim Basinger sob direcção de Curtis Hanson oferecendo um  novo fôlego ao film noir marca a diferença.

Tudo o Vento Levou Vivien Leigh & Clark Gable

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A mera sugestão de Gable é suficiente para palpitar o coração de Vivien Leigh:

“You should be kissed and often, and by someone who knows how”

The last of the Mohicans : Daniel Day Lewis & Madeline Stowe

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É difícil esquecer o encontro amoroso de Day Lewis e Madeline Stowe por detrás de uma queda de água. Haverá sitio mais perfeito?

Out Of Sight: George Clooney & Jennifer Lopez

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O poder da sedução começa pelas palavras e acaba num quarto de hotel. Clooney e Lopez com a quimíca perfeita, susceptível de embaciar o ecrã. Confesso que George Clooney nunca esteve na minha lista de preferências, mas mudei de ideias depois de ver este filme.

American Pie:  Jason Biggs e …a tarte (!?)

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À pergunta: “Qual é a sensação de entrar numa mulher”, respondem a Jason Biggs “É como uma tarte de maçã”. O que aconteceu a seguir, explica o porquê do título “Americam Pie”. O amor solitário no seu melhor (pior) nível.

Call Me by your Name: Timothée Chalamet e Armie Hammer

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Com a estreia de Call me By Your Name, assistiu-se a outra cena de…”amor”… com fruta, ainda que num melhor nível ,visionado com algum embaraço. No entanto, o actor Timothée Chalamet teve direito a nomeação para o Óscar como melhor actor e a química entre a sua personagem Elio e Oliver (Armie Hammer), transpira sensualidade nos mais pequenos pormenores

Mulholand Drive: Naomi Watts & Laura Harring

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Nunca uma relação entre duas mulheres foi tão magnética, misteriosa e sedutora. Amor obsessivo filmado por David Lynch.

Brokeback Mountain: Jake Gyllenhaal & Heath Ledger

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O amor não vê fronteiras. A  relação secreta de dois cowboys num período de 20 anos comoveu meio mundo e mudou o estereótipo da homossexualidade.

5 Declarações de Amor Cantadas

Em dia de Namorados, o Mixtape segue o lema de Marco Paulo, declarando os seus dois amores. A Música e o Cinema unem-se nestas cinco declarações de amor cantadas. A premissa preferida no cinema – rapaz apaixona-se por rapariga, dá azo à partilha de sentimentos através da canção. Se a vida imita a arte e a arte imita a vida, inspirem-se nesses exemplos de romantismo para conquistarem a vossa cara-metade neste dia de quase obrigatório romantismo.

Moulin Rouge

Os filmes de Baz Luhrmann são, por excelência musicados, mas a canção com que que Christian (Ewan McGregor) declara o seu amor por Santine (Nicole Kidman) é uma portentosa colectânea de dez canções de amor. Um mash up de deleite visual que não só conquista a irredutível cortesã Santine, como delicia o espectador.

10 Things I Hate About You

Uma versão moderna da peça de Shakespeare «A Fera Amansada», Verona (Heath Ledger) tenta «domar» Kat (Julia Stiles) apelando ao seu coração. Expõe-se em grande, cantando «Can’t Take My Eyes Off you» em frente do liceu, recrutando a ajuda da Banda. E pelo sorriso de Kat, o sucesso parece garantido.

The Wedding Singer

Compor uma canção para a sua apaixonada, até pode ser relativamente fácil para um performer habituado a animar festas de casamento, mas conseguir uma estrela de rock como Billy Idol para fazer a apresentação da sua entrada triunfal, já é coisa mais complicada. Nada que Robbie (Adam Sandler) não consiga desencantar para mostrar o seu amor por Julia (Drew Barrymore).

Say Anything

Possivelmente uma das mais queridas declarações de amor, é singela na sua concretização, mas poderosa na intensão. Depois de romper com o dedicado Lloyd Dobler (John Cusack), Diane Court (Ione Skye) é serenada, sob a sua janela, pela canção que tocava quando os dois fizeram amor pela primeira vez. No leito amoroso Diane pediu a Lloyd para escutar com atenção a canção de Peter Gabriel em «Your Eyes» e ele assim fez: «In your eyes/the light the heat / In your eyes I am complete / In your eyes I see the doorway to a thousand churches»

Blue Valentine

Dean (Ryan Gosling) oferece a Cindy (Michelle Williams) um CD com uma versão rara de uma canção que assegura ser só deles, com a convicção inabalável de quem está profundamente apaixonado. Quem viu o filme, sabe que as coisas não correm lá muito bem, à medida que o tempo (e a vida) avançam, mas, ainda assim, é bonito ver a cara metade expedita na procura da banda sonora do seu amor.

Quando o Cinema faz Búu

Com o Dia das Bruxas à porta, os filmes de terror ganham honras de Estado, desaparecendo das prateleiras dos clubes de aluguer, propagando-se pela televisão, tornando-se a fonte de inspiração para fatos de máscaras feitos para assustar todo energúmeno que se atreva a recusar oferecer doces. A verdade é que, em terras cristãs, a atenção recai no pacato feriado de todos-os-santos, mas o fascínio pelo imaginário do terror ganha outra dimensão na noite de Halloween.

Vinda da geração em que o género terror emergiu do círculo de culto para o sucesso comercial – elevando personagens de terror como Michael Myers (Halloween, 1978), Jason (Sexta feira 13, 1980) Freddy Krueger (Pesadelo em Elm Street, 1984), Chucky (Boneco Assassino, 1988) a intermináveis sagas de terror que duram…duram…duram – é uma incógnita porque os filmes de terror são incapazes de suscitar o meu interesse.

Ouvia com repulsa, os relatos horripilantes destes filmes contadas pelo meu (mais velho) vizinho do rés-do-chão que respirava filmes de terror por todos os poros. Enfim, aos 10 anos de idade, não é de todo estapafúrdio uma miúda, fã de musicais, comédias românticas e filmes de aventura, abominar a imagem de um tresloucado com máscara de ski que esfaqueia virgens em série. Ainda que para fins de entretenimento…

A diversidade de filmes visionados ao longo dos anos, provou que a classificação terror assume registos e nuances mais complexos e abrangentes que uma ilustração estereotipada de ambientes sombrios, sangue, vísceras e objectos cortantes. Basicamente, tudo o que nos assusta e acciona sensações desconfortáveis no nosso consciente (e inconsciente) alimentando as enzimas do medo e susto qualifica-se. Até partilho a opinião de Stephen King ao confessar “A imagem dos palhaços assusta-me!”.

Sabem o que também me assusta?…

Eis 10 bons exemplos de cenas mais assustadoras do cinema tendo em conta que dilataram as pupilas dos meus olhos ao máximo, arrepiaram os pêlos do meu braço, elevaram o meu traseiro do assento e afundaram o meu rosto dentro da gola do camisolão.

MEDO!MEDO!

Nota: as imagens podem conter “spoilers“.

COMPANY OF WOLVES

É irónico como a incauta visão da minha primeira cena de terror, aos 10 anos , foi proporcionada pela cópia pirata do filme infantil “A História Interminável”. Quem diria que, escamoteado em tão mágico e inocente filme, estaria a cena final de “A Companhia dos Lobos”, no exacto momento que a carne de um homem se rasga para dar lugar a um lobo. A imagem apanhou-me totalmente desprevenida e foi de tal modo chocante que nem me consegui mexer, incapaz de desligar o televisor.

DEAD ZONE

Qualquer cena que mostra um objecto cortante e sangue arrepia-me a espinha. Só de olhar para esta imagem só me vem o vómito imaginando o cheiro do sangue com a água. Agora imagine-se ver a cena em que o assassino se suicida com uma tesoura aberta espetada na boca, quando se tem 12 anos de idade.

CARRIE

A maneira como é filmado e o sangue que corre neste filme é deveras tenebroso. Quem consegue fazer da primeira menstruação, um acena de horror, tem mérito, caramba. Mas a cena mais assustadora, muito mais que a cena do baile de finalistas em que a doce Carrie mata tudo e todos à frente, é a cena final que mesmo morta e enterrada, continua a assustar a pobre Amy Irving.

BIRDS

 

Hitchcock no seu melhor. Quem consegue fazer um filme de terror com doces passarinhos é, sem dúvida um mestre do suspense. Vi o filme quando era novinha e impressionou-me bastante. Hoje em dia talvez não assuste, mas – um clássico é um clássico.

ALIENS

Durante muitos anos não vi esta cena, só a mera menção a esta me deixava agoniada. Já mais velha, ainda a vejo com algum susto. Mesmo que a gosma seja de silicone, aquele alien a rasgar o estômago do pobre John Hurt impressiona.

SILENCE OF THE LAMBS

Imaginem ver a cena da foto em que o Hannibal foge da cela deixando para trás um anjo de “pele” com uma gata que vos aterra no colo vinda sabe-se lá de onde. Mandei um berro que se ouviu ao longe. O que vale é que estava em casa…

THE SHINING

Só o pio do pianinho neste filme é o suficiente para me arrepiar a pele, imagine-se tudo o resto e a voz do miúdo a berrar “REDRUM!” brrrrrrrrrrrrrrr

BLAIR WITCH PROJECT

Mesmo sabendo que era um mito “fabricado” e que cada momento foi meticulosamente criado por dois realizadores que massacraram os actores até quase os matarem de susto, eu fiquei horrorizada. Porquê? Bosque em noite cerrada, só a ideia me deixa com MUITO MEDO! A forma como é filmado atinge em cheio o genezinho do horror, pelo menos o meu. Não só porque vemos o terror espelhado no rosto dos actores, mas porque a ideia de estar num bosque escuro como breu deixa-me totalmente HORRORIZADA.

TWIN PEAKS

Na verdade o Killer Bob não povoa o formato cinema, apesar de emergir do imaginário de David Lynch, mas basta olhar para a imagem do assassino de Laura Palmer da série Twin Peaks para desencadear pesadelos vários.

SEVEN

É incrível como um filme que não tem violência explícita e figurando um muito sexy Brad Pitt, pode assustar de tal modo que durante 1 ano nem consegui olhar para a cara de Kevin Spacey (Juro!) Não só isso, como nunca mais consegui ver o filme. Na cena do crime do pecado da “Preguiça”, quando um muito decomposto homenzinho, larga uma exclamação de agonia perante o olhar incrédulo da polícia de intervenção, eu dei um pulo tão grande da cadeira que nem sei como não me deu um ataque cardíaco logo ali.

Eu, Cameo

Para aqueles que não são versados na gíria cinematográfica, explico que um cameo diz respeito a uma pequena participação surpresa de um protagonista das artes num programa de tv, filme ou vídeo musical. A linha que separa a participação cameo de uma participação especial é ténue, mas diferenciada pela inclusão do nome do artista nos créditos iniciais (de outro modo estragaria a surpresa, não é verdade?). Que comece o compêndio de cameos.

Alguns cameos são presenças sem falas, outros têm diálogo ou uma frase. Alguns representam-se a si próprios numa realidade alternativa, outros surgem como personagens que desempenharam em filmes ou séries de tv que de algum modo estão ligados ao contexto. Não há limites nem regras, é um pouco vale tudo, desde que contenha o elemento surpresa e o efeito cómico também. Alfred Hitchcock foi um dos primeiros cineastas a explorar esta coisa do cameo, surgindo amiúde nos seus filmes.
Bruce Willis
“Mad About You” (TV)

No episódio em que Jamie dá entrada no hospital para ter o bebé, Paul embarca numa odisseia para trazer a aliança da esposa que ficou esquecida no apartamento. Ao regressar depara-se com um aparatoso dispositivo de segurança devido à hospitalização de Bruce Willis depois de um acidente na filmagem do seu último filme: “Die Already”. Uma clara graçola à franchise, com a conivência de Willis (na altura a filmar “Doze Macacos”), absolutamente hilariante, satirizando o seu personagem do durão desbocado John Maclaine.

Anos mais tarde, Willis participa, como ele próprio, em “Ocean’s 13“, confrontando-se com a personagem Tessa, protagonizada por Julia Roberts, fazendo-se passar por…. Julia Roberts! Sim, é confuso, mas bem explicadinho soa assim: Julia Roberts interpreta a personagem de Tessa que, levando a cabo, um esquema, faz-se passar pela actriz Julia Roberts.

Pearl Jam
“Singles”

A carta de Amor de Cameron Crowe à cidade de Seattle resulta numa extraordinária banda sonora que, não só reflecte a década de noventa, como inclui participações dos músicos que definiram a cena musical de Seattle. A mais curiosa, os três elementos dos Pearl Jam, aqui como companheiros da banda de Cliff (Matt Dillon), os Citizien Dick. Outros cameos incluem, o próprio realizador, Chris Cornell dos Soundgarden e Tim Burton.

Bruce Springsteen
“High Fidelity”

Quando Rob Gordon (Cusack) deambula sobre a possibilidade de falar com todas as suas ex-namoradas para perceber o que falha nas suas relações, remete para uma canção de Bruce Springsteen. Qual não é o nosso espanto quando o Boss, ele próprio, improvisa pérolas de sabedoria dedilhando a sua guitarra.

Alice Cooper
“Wayne’s World”

Quando se fala em Alice Cooper, imaginamos algo decadente, macabro, obscuro e até sanguinário. Quando Wayne e Garth, de acreditação Livre Acesso em riste, entram no camarim de Cooper, não estão preparados para a presença serena e algo didáctica de tão visualmente assustador performer. E nós também não, daí a piada. A realizadora Penelope Spheeris confessou que, inicialmente pensou, em Ozzy Osbourne para o papel, mas este rejeitou. O futuro ditaria que o público veria igualmente Ozzy num ângulo bem diferente daquele que estamos habituados.

Steven Spielberg, Tom Cruise, Gwyneth Paltrow, Britney Spears, Kevin Spacey, Danny DeVito
“Austin Powers – Golden Member”

A predilecção das aventuras do espião Austin Powers, está na justificação para a incrível parada de artistas que brindam os créditos iniciais do terceiro filme da saga Austin Powers. Primeiro um spoof do spoof que são as aventuras do espião de Sua Majestade preso da década errada. De seguida de um making of com direito a ver os seios de Britney Spears a disparar rajadas de munição.

Harrison Ford
“E.T – Extra – Terrestrial”

Aqui está um cameo muito bem disfarçado, são poucos os que reconhecem a figura e voz de Harrison Ford como o professor de Elliot na sequência da dissecação dos sapos. Ford aparecia noutra cena, que acabou por ser cortada, mas pode ser vista no DVD.

Cher
“Will & Grace” (TV)

Esta série teve inúmeras e frutíferas participações especiais, ou os actores protagonizavam personagens ou interpretam si mesmas. Este cameo de Cher é inesperado e não seria o único na série. Engraçado como Jack, fã número um de Cher, a ignora por completo, tomando-a por um travesti muito bem disfarçado.

Matt Damon Ben Affleck Gus Van Sant
“Jay & Silent Bob”

O filme é mau e talvez Matt Damon e Ben Affleck o soubessem mas, como o primeiro diz no filme “quem manda dever favores a amigos?!”. Este é o melhor momento do filme. A cena diz respeito à filmagem de uma suposta sequela de “Good Will Hunting”, dirigida (ou não) por Gus Van Sant.

Robert Patrick
“Wayne’s World”


Um bom exemplo de cameo, com Robert Patrick a bisar a arrepiante personagem de T1000 em Terminator – Judgment Day que ainda estava fresquinha na memória dos espectadores aquando a estreia de Wayne’s World em 1992.

Brad Pitt & Matt Damon
“Confessions of a Dangerous Mind”

O poder de influência de George Clooney, não só consegue contratar Julia Roberts por uma nota de 20 dólares, como “pesca” estes dois belos cromos, na realização do seu primeiro filme.

Michael Jackson
Men in Black

Michael Jackson, um alien a requisitar um lugar como agente MIB. Realidade ou ficção?! Apenas um cameo muito bem pensado.

Keith Richards
“Pirates of the Caribbean – At World’s End”

Quando Johnny Deep confessou ter baseado o seu personagem de Jack Sparrow no legendário guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, estava longe de imaginar que ele aceitaria interpretar o seu pai no terceiro filme da saga Piratas das Caraíbas. Quanto ao espectador, foi uma surpresa já anunciada, mas talvez a surpresa maior foi saber que Richards partiu a cabeça ao cair de um coqueiro quando estava no local da filmagem. Há pessoas que mais parecem personagens de filme e Keith Richards é uma dessas pessoas.

Marshall McLuhan
“Annie Hall”

O que faz um estudioso da comunicação num filme de Woody Allen? Ajuda a provar um ponto de vista. Parafraseando Woody Allen ” Se ao menos a vida real fosse assim…”

Michael Jackson: Liberian Girl (Video clip)

O obsceno número de cameos no videoclip de um dos singles do álbum Bad, não só impede a menção a todos os artistas (cantores, actores, realizadores, produtores) nele incluídos, como me atrevo a caracterizar este clip como um enorme cameo em forma de vídeclip.

Os realizadores, volta e meia, gostam de meter uma perninha na interpretação, ou por piada ou por falta de casting. Peter Jackson é daqueles que raramente falha um cameo.

Também Martin Scorcese

Audições para o novo coelho da Páscoa

Com a proximidade da Páscoa, o Mixtape faz um exercício cinéfilo sob a premissa de encontrar o novo rosto do coelhinho da Páscoa. Como? Avaliando as audições de cinco coelhos do imaginário do cinema. Sentem-se no banco do júri e avaliem os vossos favoritos.
Roger Rabbit
(Who Framed Roger Rabbit)

“My whole purpose in life is to make… people… laugh!”

Perfil: Actor Animado, especializado em comédia screwball. Baixo, pêlo branco, com poupa ruiva, olhos azuis e um genuíno brincalhão. Casado com Jessica Rabbit.

Prós: É um coelho do Show biz, um profissional treinado para entreter as massas (especialmente crianças) e tem a ajuda da sensual esposa Jessica Rabbit na distribuição dos ovos de chocolate, algo que fará igualmente as delícias dos pais das criancinhas.

Contras: Tendo em conta o nível de ansiedade de Roger, o mais provável seria os ovos de Páscoa ficarem pelo caminho ou serem todos ingeridos pelo frenético coelho.

Bugs Bunny
(Looney Toons)

“What’s up, Doc?”

Perfil: Desenho animado, trabalha para a Looney Toons. Espertalhão, sabichão, versátil. Espadaúdo, pêlo cinzento e olhos castanhos, tem dois inimigos figadais: Yosemite Sam e Elmer Fudd. Gosta de roer uma cenoura

Prós: Bugs Bunny é um coelho vivido e viajado, safa-se bem de apertos e é imaginativo. Para além de ovos de chocolate e amêndoas, pode igualmente distribuir uns palitos de cenoura que é uma opção mais saudável.

Contras: Tendo em conta o seu fraco sentido de orientação debaixo da terra, é melhor mantê-lo acima do solo. Trazer Yosemite Sam e Elmer Fudd no encalço é meio chato, mas sem dúvida divertirá as crianças que acharão piada ao farfalhudo bidode de um, e a estranha fonética do outro.

Frank
(Donnie Darko)

 “You’re in great danger”

Perfil: Alucinação representando a voz de um futuro tenebroso. Alto, soturno, rosto coberto por máscara horripilante de dentes e órbitas dos olhos salientes.

Prós: Óptimo para corrigir crianças birrentas, armadas ao pingarelho.

Contras: Espanta a criançada o que resultaria numa acumulação de ovos de chocolate e amêndoas, mas poderiam ser distribuídas por instituições de caridade. Não tem uma máscara apelativa para espalhar a mensagem cristã da ressurreição de Cristo.

M.A.U
(videoclip “Prick (I am)

Perfil:Homem com fato de coelho em peluche de cor azul. Esguio e rápido com embaraçantes movimentos pélvicos. Parco nas palavras.

Prós: É um coelho energético sob a capa de coelho amoroso e engraçado. Transmite, com sucesso, a imagem de fertilidade, a razão por que o coelho foi escolhido como  a representação da Páscoa.

Contras: Risco eminente de ser acusado de exposição indecente e perturbar a santa paz da Páscoa.

White Rabbit
(Alice in Wonderland)

“I’m late!”

Perfil: Desenho animado. Um coelho sénior de pêlo branco, bem-falante, bem vestido e bem articulado. Usa óculos. Implementa na sua indumentária o chapéu-de-chuva e relógio de bolso  que lhe confere um ar british e precavido.

Prós: Aspecto exemplar, pés ligeiros e chave para a entrada no Pais das Maravilhas

Contras: Está sempre atrasado e por isso há o risco de apenas estar disponível no feriado do Dia do Trabalhador. A idade pesa.