O Imaginário Datilografado

A máquina de escrever é um objecto obsoleto com o advento dos aparelhos computorizados mas ainda conserva o seu charme. A imagem de um poema escrito em máquina de escrever, fez-me voltar no tempo em que a máquinas de escrever fazia parte da minha vida. A nossa convivência foi curta, tendo em conta a transição para o computador quando iniciei a faculdade, mas a imagem romantizada da máquina de escrever permanece comigo e relega-me sempre para um universo de poetas, detectives, jornalistas e escritores sentados nas suas cadeiras transformando os seus pensamentos em caracteres dactilografados.

A máquina de escrever ainda vive no universo cinematográfico (ou ao colo de um hipster de núcleo duro) relembrando o preto e branco do film noir, o perigo ao virar da esquina da espionagem do pós guerra, a diligência das grandes investigações jornalísticas e a escrita de guiões. Não admira que este pequeno equipamento mecânico /electrónico seja tão carismático, capaz de roubar protagonismo aos filmes.

Em pesquisa sobre este tema, vi uma página que dedica a sua atenção às máquinas de escrever,The Antikey Chop e graças ao seu autor, Greg Fudacz, posso mencionar o nome do modelo que surge nestes 10 momentos onde a máquina de escrever tem um papel especial.

TRUMBO de Jay Roach
EspaçoTemporal: década de 50
Modelo: Underwood Standard

Os argumentistas da época dourada de Hollywood são praticamente escravos das suas máquinas de escrever (ou será o inverso?). No filme é interessante ver o processo de trabalho de Trumbo (Bryan Cranston), com o corta e cola a fita-cola para juntar partes e organizar outras, uma máquina extra para passar a limpo, escrever na banheira usando um suporte a servir de secretária (as máquinas daquele tempo não eram leves), mas sempre agarrados às máquinas de escrever. Acompanhantes da máquina de escrever de um argumentista, o copo de whiskey e cigarros (muitos…).

WONDER BOYS de Curtis Hanson
Tempo da acção: 2000
Modelo: IBM Selectric

O professor Grady (Michael Douglas) e o interminável romance escrito à máquina na era dos computadores. O escritor marcado pelo grande sucesso do seu primeiro livro que vive assombrado pelas expectativas da obra que se segue. A máquina de escrever aqui é simbólica de alguém preso num tempo outrora feliz.

ATONEMENT de Joe Wright
Espaço temporal: 1935
Modelo:Royal No.10

Robbie (James McAvoy) escreve uma carta muito inspirada a Cecilia (Keira Knightley), depois de várias tentativas frustradas onde teve de repetir o processo de bater na máquina vezes e vezes sem conta. Afinal de contas, falta à máquina de escrever o botão delete

ADAPTATION de Spike Jonze

Espaço temporal: 2002

Modelo: IBM Selectric II (?)

O argumentista (Nicolas Cage) em bloqueio criativo em frente à máquina de escrever. O temor de todos os escritores.

MOULIN ROUGE de Baz Luhrmann
Espaço temporal: Virar do séc XX
Modelo: Underwood Standard No.5

Christian (Ewan McGregor), o autor poeta sonhador escreve a história de amor entre ele e Santine (Nicole Kidman) devastado pela morte desta.

SCHINDLER’S LIST de Steven Spielberg
Espaço temporal: 2ª Guerra Mundial
Modelo: Continental

A máquina de escrever não serve só produções criativas, mas também as administrativas. Neste filme serve um propósito muito maior, os nomes incluídos na lista foram aqueles salvos do Holocausto Nazi. Itzhak Stern (Ben Kingsley) e Oskar Schindler (Liam Neeson) compilam os nomes de empregados a ser recrutados para a fábrica de Schindler que foram desviados dos campos de concentração.

ALMOST FAMOUS  de Cameron Crowe
Espaço temporal:1973
Modelo: IBM Selective / Smith-Corona Galaxy Deluxe

William Miler (Patrick Fugit) é um fã incondicional de música e também o mais jovem jornalista da Rolling Stone. Em conversa com o seu ídolo mentor, Lester Bangs (Philips Seymour Hoffman) confessa usar uma Smith-Corona Galaxy, mas no filme do filme surge a escrever numa IBM (modelo bastante popular nos nos 70)

ALL THE PRESIDENT’S MEN de Alan J. Pakula
Espaço temporal: início dos anos 70
Modelo: Olympia SG3

Máquina de escrever era o melhor amigo dos jornalistas, era, de facto, o seu instrumento de trabalho. As redacções pré era computorizadas eram totalmente diferentes como se pode observar neste filme que segue os dois jornalistas de investigação que denunciam o que viria a ser chamado caso Watergate que levou à demissão do presidente Richard Nixon

LOVE ACTUALLY de Richard Curtis
Espaço temporal:2003
Modelo: Olympia SM9

Outro filme em que o autor, Jamie (Colin Firth) opta por usar a máquina de escrever numa altura de pleno processamento de texto computadorizado. Também ele tem aquele ideia romântica dos escritores que escrevem romances de sucesso em máquinas de escrever. Só que depois, acidentes acontecem e lá vai a Lúcia Moniz salvar a situação.


THE SHINING de Stanley Kubrik
Espaço temporal:início anos 80
Modelo: Adler Universal Typewriter

O autor Jack Torrance (Jack Nicholson) com bloqueio criativo, viaja com a família para um hotel fechado no Inverno, esperando conseguir sossego e inspiração. Nem uma coisa, nem outra. O que Torrance consegue é assustar de morte a sua mulher e filho e nós por arrasto. Até a máquina de escrever parece tenebrosa nesta cena.

Em menção honrosa, o tema instrumental de Atonement, onde o compositor Dario Marianelli usa o som da máquina de escrever como parte integrante do tema «Briony».

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