A voz do Trailer Cinematográfico

No passado dia 16 de Abril celebrou-se o Dia da Voz e pensei em algo especial para esta efeméride: recordar as vozes de locução de trailers de cinema, os chamados voice overs. Até aos anos 90 e início dos anos 2000 estavam muito em voga e dizem respeito a um locutor com timbre muito específico que explica a história de um filme em pungentes frases, num  tom de voz grave excessivamente dramático. Como se a qualquer altura o Mundo fosse acabar e ver aquele filme seria a derradeira oportunidade para usufruir os últimos momentos no planeta Terra. Bem, pelo menos nos filmes de acção mais vertiginosa. Vejam este sketch usado para introduzir uma cerimónia de entrega de prémios de publicidade onde 5 conhecidas vozes de locução fazem um carpool de contornos épicos.

Os jovens possivelmente não se recordam desta particularidade dos trailers de hoje, na verdade o voice over raramente é usado, senão para trailers de versão parodiada como fazem os colegas cromos do canal Screen Junkies, com a série Honest Trailers e, recentemente, Ryan Reynolds usou a sua voz num teaser trailer do filme Deadpool. O próprio confessa que muitas vezes narra a sua vida usando esse estilo de voz ,tornado popular por Don LaFontaine. Aqui percebemos o peso destas vozes, cujos rostos desconhecemos mas a voz identificamos de imediato, como parte da cultura popular. No entanto, já não são usadas. Porquê?

Pode-se especular sobre as razões, dinheiro pode ser uma delas. Numa cena do filme documentário My Date With Drew de Brian Herzlinger, pode ver-se um estúdio de uma empresa dedicada a editar trailers e dá a conhecer uma voz de locução , George DelHoyo, nome de guerra Voice Trailer Guy. Pelo clip percebe-se quanto pode custar uma destas vozes, em breves segundos – acima dos mil dólares e estamos a falar de preços de 2004. Nestes tempos de crise, onde a industria cinematográfica aperta o cinto, o alto custo das vozes de locução pode fazer parte da equação.

O  trailer cinematográfico continua a ser a maior arma dos estúdio para trazer espectadores para as salas, mas a forma de os editar mudou. As casas de edição de trailers apostam num ritmo cada vez mais vertiginoso e revelador, adequado às novas plataformas de divulgação, das redes sociais e com trilha sonora feita por medida (escrevi sobre este tema num mixtape anterior). Imediato, rápido e de maior impacto onde o papel de voice over  é substituído por títulos garrafais e/ou  as vozes dos próprios actores proferindo linhas de diálogo das personagens que apresentam o filme. Edição ardilosa e música épica fazem o resto – alguns de forma demasiado reveladora mas sobre isso falaremos numa próximo mixtape.

O voice over imperou durante décadas e na entrada do século XXI, outras formas de narrativa imergiram, tomando o seu lugar, mas vale a pena conhecer alguns rostos por detrás da voz. Aproveitando a deixa deixada de herança pelas vozes de locução do  trailer cinematográfico, «Num Mundo, onde as vozes de locução de trailers dominavam, quatro nomes se destacam. Venham conhecê-los, num mixtape perto de si.».

DON LAFONTAINE

Don-LaFontaine-

Uma das mais conhecidas vozes de narração para promoção cinematográfica, conhecido como «Thunder Throat»,  a voz relâmpago,  fazia de qualquer trailer um momento épico. É dele a frase «In a World…» usada tão exaustivamente que acabou por se tornar um cliché cómico. Faleceu em 2008, deixando para trás um invejável currículo de mais de 5000 trailers de cinema, entre trabalhos de locução em publicidade e videojogos e o incontestável título de rei das vozes de locução.

HAL DOUGLAS

Tal como todos os outros locutores começou na rádio nos anos 50, mais por necessidade de trabalho quando ainda estava a estudar interpretação dramática, mas a sua voz chamou a atenção e depressa é cobiçado para a promoção na televisão e cinema A maior parte dos  colegas de locução de trailers estão sediados em Hollywood, mas Hal trabalhava a partir de Nova Iorque. Com a sua morte em 2014 é o último da velha guarda da locução de trailers de cinema.

 

BEN PATRICK JOHNSON

ben

É o mais novo da geração de voice overs, na casa dos 40 e embora o seu trabalho se restrinja mais a promoções em canais televisivos, também fez locução para trailers, numa altura em que já não era uma opção popular como outrora. Ao contrário da geração anterior, começou pela figuração, com sonho de ser actor, mas o seu tom de voz característico foi o que mais sobressaiu e ficou como parte de um exclusivo clube de talento de locução.

EDUARDO RÊGO

eduardo rego

Em Portugal, não existe a tradição da voz de locução dos trailers de cinema e só na última década surgiram empresas especializadas exclusivamente a montar trailers, porém existe uma voz que se destaca nos trailers de animação, na sua versão dobrada para português, de seu nome Eduardo Rêgo. Formado em Teologia, Eduardo Rêgo começou por trabalhar em rádio (na Rádio Renascença) até se tornar a voz exclusiva dos documentários de natureza no então formado canal da SIC, assumindo um registo mais descontraído e divertido. A sua voz visita-nos todos os fins-de-semana  de manhã na forma de locução dos documentários da BBC Vida Selvagem. Formou e é director da empresa de tradução, locução e legendagem Traduvárius

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