Fade In /Fade Out

Cada espectador guarda na memória a sua lista de filmes preferidos pelas mais variadas razões; guião, elenco, identificação com a história, estética visual. Alguns filmes marinaram uns tempos no limbo da indecisão até agraciar a lista das preferências. O tempo, a maturidade, a experiência, repetidos visionamentos são factores, porém no Cinema, tal como no Amor, há filmes que nos conquistam logo no primeiro minuto, antes mesmo dos créditos de abertura. Há outros que nos conquistam no final. 

Na lista que se segue o denominador comum nos dois é a banda sonora. Instrumental ou vocalizada, é o caminho directo para o meu nervo emocional. O que me faz chorar em segundos, sentir falta de ar ou adrenalina a subir dado a intensidade das imagens aliadas à música. Eu diria que esta lista é um Top 10 +, mas eu não lido bem com números redondos e fiz batota na lista de melhores sequências introdutórias

 Star Wars



A abertura deste filme é um clássico. Apenas uma frase em fundo negro no silêncio “A long time ago, in a galaxy far, far away…”, disparando num Bang instrumental da autoria de John Williams, que vai direito estômago, como se fossemos impulsionado num foguetão rumo às estrelas. Nem todos sabem que a disposição do crawl up (na gíria cinematográfica) foi inspirado na série Flash Gordon dos anos 30, ainda menos sabem que George Lucas, o realizador do filme, pagou cerca de 250 mil dólares de multa ao Sindicato das Ciências Cinematográficas, para manter os créditos do filme no segundo episódio da saga. Não obstante as maravilhas técnicas por detrás desta introdução, é o tema de John Williams que torna a sequência de abertura intemporal e inesquecível, particularmente numa sala de cinema.

Romeo + Juliet

 

Baz Lurhmann é um visionário, aficionado por ópera e isso reflecte-se na sua interpretação cinematográfica da tragédia de William Shakespeare: Romeu e Julieta. Baz adapta a peça situando-a numa actualidade hiperbolizada, mas mantendo o texto literário original do século XVI. A sequência arranca numa orgia sonora no tema instrumental que lembra “O Fortuna” da ópera Carmina Burana, enquanto as imagens disparam a uma velocidade estonteante na mesma cadência da música. Como fogo de artifício que dispara com estrondo, retirando-nos o fôlego e nos projecta directamente no mundo Lurhmanniano.

25th Hour

O tema de Terrence Blanchard, que ecoa como um triste requiem às Torres Gêmeas, é simplesmente magistral e complementa na perfeição com a estética visual criada por Rodrigo Prieto. Os créditos iniciais parecem casuais efeitos luminosos para evidenciar em crescendo musical os holofotes emitindo um feixe de luz que se eleva aos céus no preciso local onde jaz a memória do ataque terrorista de 11 de Setembro.

Bram Stoker’s Dracula

O filme inicia com o prólogo, contextualizando o passado do conde Drakul, uma triste e trágica história de amor e perda que leva o conde a amaldicionar Deus e tornar-se numa figura das Trevas. Todo o ambiente lembra um quadro em tons fogo, um teatro de sombras, ao som do portentoso instrumental da autoria de Wojciech Kilar. Começa de mansinho para crescer numa intensidade quase sufocante, como uma vibração que atinge o peito sucessivamente, revelando-se uma experiência catártica antes mesmo do título genérico. Toda a banda sonora: sorumbática, sombria, triste, pujante de drama é uma presença omnipresente revelando os estados de alma dos outros personagens.

Titanic

Confesso! Choro facilmente nos filmes, especialmente quando as imagens são aliadas a uma banda sonora arrebatadora. No caso de Titanic, as lágrimas rolaram pela minha face aos 30 segundos do início do filme. Tudo o que bastou foi ouvir a etérea voz da Sissel no tema instrumental composto por James Horner: “Never an Absolution” enquanto desfilavam as imagens recriadas da saída inaugural do Titanic, intercaladas com as imagens reais do navio no fundo do mar. Foi a primeira vez que chorei num genérico, mas fiquem a saber que não larguei nenhuma lágrima no genérico final ao som da canção da Celine Dion: My Heart will Go on”!

Dancer in the Dark

Em 2000, com a polémica do filme de César Monteiro “Branca de Neve” ainda no ar(mais de metade do filme passa-se em ecrã negro), temeu-se o pior no visionamento do filme do nem sempre ortodoxo Lars Von Trier. Assim que o instrumental conduzido por Vincent Mendonza: “Overture” foi crescendo em intensidade, o ecrã negro deixou de ter importância durante os três minutos que assim permaneceu. Cada minuto vivido com equivalente intensidade emocional, introduz-nos no mundo de Selma, quase à beira da cegueira com capacidade de sonhar as mais bonitas imagens ao som da música. Esta foi a segunda vez, que chorei logo no genérico, os instrumentais em crescendo são canais directos para os tubos lacrimais. A sério…

Pulp Fiction

Quentin Tarantino escolhe com muito cuidado a sua banda sonora, sempre composta por canções e não a usual score. Ele afirma que o tema de abertura é o mais importante pois transmite qual o ritmo do filme. Ainda nas suas palavras: “Usar um tema como Misirlu (tocado por Dick Dale & His Del-Tones)é dizer ao público preparem-se para ver um grande épico que começa com um Bang”. É isso mesmo, nem vale a pena acrescentar mais nada. o tema de abertura precedido por um assalto a um restaurante é o lamiré para uma aventura desenfreada, assim como o ritmo do tema que sobe a adrenalina de qualquer um.

Shoot ’em Up

A introdução transmite o ritmo TODO no filme, o aparecimento do título genérico é, talvez, o único momento parado. O tema “Breed” dos Nirvana marca o ritmo de coreografadas e vertiginosas cenas de tiroteio. Acho piada como o logótipo da New Line entra no barulho ao ser polvilhado de balas.

Indiana Jones and the Temple of Doom

Os genéricos de todas as aventuras de Indiana Jones têm uma particularidade engraçada, pois sobrepõem o logótipo da Paramount – uma montanha – numa imagem real de algo com a mesma silhueta e forma. Escolho este genérico pois satisfaz a minha paixão pelos musicais Hollywoodescos inspirados na Broadway.

Le Fabuleux destin de Amélie Poulin

Mais um genérico que contextualiza a vida da personagem. Aqui vemos o crescimento da pequena Amélie de uma forma peculiar. Um caleidoscópio de singularidades curiosas, narrado em forma teletexto que, mais tarde seria copiada noutros filmes. Ao som do piano inspirado de Yann Tiersen. Um mimo!

Love is all Around

Quando vi este genérico fiquei comovida pelo facto do realizador, Richard Curtis, sentir o mesmo que eu em relação à porta de chegadas dos aeroportos. Não sei bem porquê, mas quando estou no aeroporto, não resisto a espreitar a porta de chegadas e sentir-me contagiada pela felicidade genuína dos rostos que por passam. A melodia melancólica de Craig Armstrong lembra um dia triste de chuva, mas esta montagem, onde pessoas reais e não actores partilham momentos de pura alegria é tudo menos melancólica.

FADE OUT

A lista seguinte foca os filmes, ainda que extraordinários, revelam cenas finais que tornam o filme inesquecível, para sempre tatuados na memória. A maior parte destes filmes não tem final feliz ou desejado, mas a banda sonora é a grande responsável por conduzir os respectivos finais à apoteose. Noutros filmes, é a viragem dramática que a banda sonora ajuda a criar, mas que vale por si só.

ADVERTÊNCIA
Aviso para não veres os vídeos dos filmes indicados em baixo, pois irá arruinar a experiência do visionamento do filme.

Nuovo Cinema Paradiso



O filme é uma ode ao cinema e como tal apaixonei-me imediatamente por ele. A sala de cinema da minha terriola foi praticamente uma irmã e ainda penso nela com doce nostalgia. A cena final, onde o adulto Toto vê uma montagem das cenas românticas, cortadas pela censura do padre da aldeia, ao som do belíssimo instrumental de Ennio Morricone, entra pelo meu coração adentro com avassaladora emoção. Não sei explicar porque todos os instrumentais de Morricone me fazem triste ao ponto de chorar sem perceber porque carga de água, mas neste filme, imprime uma marca de felicidade que extravasa a própria felicidade. Possivelmente o melhor final cinematográfico de todos os tempos.

American Beauty



De novo, um filme que me conquistou logo no genérico como um brilhante e sarcástico guião e assim continua até ao final, simplesmente magistral. O discurso final de Lester Burham (Kevin Spacey) pautado pelas doces notas musicais de Thoman Newman é uma inspiração e ainda conservo o texto de Alan Ball na minha agenda:

It’s hard to stay mad, when there’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once, and it’s too much, my heart fills up like a balloon that’s about to burst… And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can’t feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life… 

Thelma and Louise

Este final não seria o mesmo sem o tema de Hans Zimmer: “Thunderbird”. Sei-o porque vi o final alternativo no Dvd (edição de coleccionador) e não produz qualquer impacto. Os acordes iniciais são como um chorar de despedida e é voando com o seu Thunderbird pela imensidão do Grand Canon, que estas duas amigas se despedem. A imagem é parada seguida de flasbacks com os momentos que Thelma e Louise passaram. O resultado final é magnâmico e inspira muito mulherio a seguir a tag line: Somebody said get a life… so they did. “

Braveheart

Vi este filme, muito contrafeita e em VHS pois não havia perdoado o facto do mesmo ter ganho o Óscar de Melhor Filme em vez de Dead Man Walking (o meu favorito nesse ano). Longe de ser um mau filme, é deveras inspirador, com imagens belíssimas de uma Escócia que só iria conhecer um ano depois. Foi a sequência final que vai desde a cena de tortura em que William Wallace grita “FREEDOM” e morre, culminando na batalha de Bannockburn. Quando Robert the Bruce, em clara desvantagem numérica, avança para as tropas inglesas levando a Escócia até à liberdade é uma sequência apoteótica. A música de James Horner entra pelo ouvido como um grito de Guerra e a sério que me fez levantar e berrar: “FUCK THE ENGLISH!” Ok,o meu grito foi interno, mas que este final nos faz levantar da cadeira com vontade de conhecer a Escócia, podem crer que faz.

E.T- Extra Terrestrial

Basta dizer que este é o filme da minha vida. Vi-o numa sala de cinema com a tenra idade de 5 anos, ainda sem saber ler. Marcou-me para sempre e não tive dificuldade em perceber o que se passava, apesar de não saber ler as legendas. A música de John Williams guiou-me sempre até ao final que é triste pois resulta numa separação entre dois amigos, mas deixa uma marca inesquecível na memória. É o típico final que nos leva à apoteose da baba e ranho. John Williams tem esse poder, o de contar uma história com a música. Spielberg faz isso com as imagens, mas puder contar com Williams para amplificar a história é uma bênção.

The Bridges of Madison County

Talvez este seja um filme demasiado romântico, tendo em conta que é realizado pelo durão Clint Eastwood. Na minha modesta opinião, é uma história de amor muito bonita que se concretiza mas não pode se prolonga por vontade da personagem interpretada magistralmente por Meryl Streep. Na cena final, chove torrencialmente, Francesca, deseja mais que tudo fugir com Robert, mas faz o derradeiro sacrifício de o deixar partir para ficar com a família. A dor espelhada no rosto de Streep inunda o nosso coração de tristeza, mas a ideia de preservar para sempre um momento tão perfeito é igualmente memorável.

Dead Man Walking

O desfecho deste filme vale por 10 debates sobre a pena da morte. A cena que me fez chorar baba e ranho (literalmente!) é tão brilhante que basta pensar nela para me virem lágrimas aos olhos. Quando Poncelet (Sean Penn) faz o percurso para a câmara da morte, a irmã Prejan (Óscar mais que merecido para Susan Sarandon), olha para ele e diz: “The last thing I want you to see in this world is hate. When they do this, look at me and I’ll be the face of love for you”. A sublime voz de Nusrat Fateh Ali Khan, acompanha a verdade do que aconteceu na noite em que Poncelet violou e assassinou uma mulher, intercalando com imagens do procedimento de injecção letal. A genialidade desta sequência é estabelecer um paralelo entre um ser humano a matar outro humano e o Estado a matar um ser humano. Embora seja uma cena de uma brutalidade para além da minha capacidade de absorção, é poética na sua concretização.

Primal Fear

O momento em que este filme faz a transição de interessante para “c’um caneco!” é exactamente no final, nesta cena. Observar um actor deste calibre em acção é puro deleite, até nos esquecemos da música de fundo.

Lost in Translation

O segundo filme de Sofia Copolla é quase um slideshow fotográfico, a própria diz que se inspirou em fotografias que tirou na sua viagem ao Japão. A sua equipa técnica achava aquele método deveras estranho, mas o filme é uma delicia visual e emocional. A última cena, em que Bill Murray despede-se de Scarlett Johansson, ambos partilham um momento especial,a personagem de Murray sussura algo ao ouvido de Scarlett que é inaudível para o espectador, mas é exactamente isso que faz a cena especial. Um momento só deles que assistimos com genuíno prazer. o filme termina com um travelling estrada fora ao som dos Jesus and Mary Chain: “Just Like Honey”. Existe tema de fecho mais propriado?! Adoça os sentidos como doce mel. Perdoem-me a má qualidade do video, mas parece que o Youtube dedica mais tempo a descortinar o conteúdo das palavras sussurradas do que salientar o clip final

6th sense

Uma palavra – reviravolta, conhecido na gíria cinematográfica como twist
Tornou-se a imagem de marca de M. Night Shyamalan (até enjoar). É uma revelação ver a reviravolta surgir à nossa frente e ver o público soltar um “ahhhhhh!” quando acontece. Banda sonora irrelevante, embora o sr James Newton Howard mereça ser louvado.

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